Felipe era um menino magro, ainda não muito alto, e piscava muito. Suas roupas eram sempre um tanto folgadas e rôtas. Felipe tinha sido criado por sua avó desde os dois meses de idade, a Mãe Nana. Era a vida toda Felipe e Mãe Nana numa casinha pequena, bem pequena, como se fosse só pra caber os vasinhos de violeta de Mãe Nana. Eles se amavam com um amor de linha e agulha.
Felipe era um menino "avoado", como diziam seus professores, não prestava bem atenção às tarefas, às aulas, e nem mesmo desenhava no caderno enquanto isso, como faziam seus colegas também pouco atentos. Felipe batucava. Felipe batucava com lápis, caneta, borracha, pedaço de arame de caderno, canudo da cantina, graveto do meio da rua, e, se lhe tirassem tudo isso, Felipe batucava com os dedos.
Desde que entendera o mundo dos sons, Felipe procurava, achava e se enfiava em toda brecha que podia para poder tocar. Já tinha tocado chocalho, tambor de mão e de baqueta, apitos, instrumentos de metal, até pandeiro Felipe já tinha tocado. Ninguém lembrava muito de Felipe, afinal, ele passava mais tempo no mundo dos sons do que no das pessoas. E aí Felipe já participava, ao mesmo tempo, de 4 grupos de música, um deles só de percussão, entre sua cidade e os municípios vizinhos, sem instrumento algum na casinha a não ser um par de baquetas que ganhara de um gringo, e provavelmente o único que lá caberia sem empurrar Mãe Nana e seus vasinhos para fora.
Chegava uma apresentação, Felipe não podia perder. Nunca havia estado em uma apresentação assim. Era um desfile, e ia ser dos grandes. Felipe estava numa correria, arrumar faixas, alças, fardas de cetim brilhante, sapatos. Mãe Nana estava na correria com ele. Mãe Nana tinha que achar tudo o que Felipe ia precisar, ia gastar dinheiro, mais do que parecia ter de onde tirar, andando bastante no seu passinho curto e decidido atrás de cada coisa que faria seu neto ficar bem bonito no desfile.
Tinham conseguido tudo. Felipe estava nervoso. Pouco tinha conseguido pregar os olhos na noite anterior, se arrumava, mal acertando os botões da camisa. Estava pronto. Mãe Nana olhava da porta, seu neto fardado, o cabelo brilhante engomado, sapatos novos. Olhava seu filho de olhos brilhantes, de mãos agitadas procurando falhas na vestimenta e um sorriso enorme no rosto. Antes de ir ele disse "Obrigado", no tom mais grave que ele usaria. "Vá pro seu batuque", ela disse,"Vá com Deus", ela disse.
Na rua, o menino feliz e com pressa.
Mãe Nana numa casinha sem violetas.
Que terno... (:
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